quinta-feira, 19 de abril de 2012

Breve Obituário Cotidiano


5

Conheci Madame Tussaud por acaso, três anos atrás, depois de ser internado por causa de um transtorno de personalidade, uma espécie de paranóia que se instalou na minha cabeça: por um tempo eu comecei a achar que eu era um justiceiro, um tipo de açougueiro assassino, e que toda a escória do mundo deveria morrer pelas minhas mãos. A história é longa e não vem ao caso. O que importa é que passei um tempo no pinel do Hauer com o Dr. Nascimento e as coisas se esclareceram. Enfim... o negócio é que eu e Madame tivemos aquele típico trombão de corredor. Ela deixou cair uma sacola do Mercadorama com frutas, e eu alguns livros que eu recém havia comprado num sebo. Nos olhamos por alguns segundos...
            - Seu piá de merda! Você está cego? Vê se olha por onde anda!
            - Calma, minha senhora...
            - Calma?! Eu estou muito calma!
“Nota-se”
            - O quê? O que você disse?
            - Nada, não...
            - Tira essa mão suja das minhas compras! Não precisa me ajudar! Eu só estou velha, não estou morta!
“Pra mim, cê tá parecendo um zumbi”
            - Piá desaforado!
Ela disse, emendando uma bolsada no meu braço.
            - Por acaso, a senhora lê pensamento, é?
“Vai se fudê! Velha do caralho!”
            - Quem é velha, hein?!
A discussão durou mais uns quinze minutos. No fim, ela recolheu suas frutas e seguiu seu rumo. Eu fiquei com uma pulga atrás da orelha.
“Como ela sabia o que eu tava pensando?”
Então, um dia fui até o apartamento dela. Sala 111.

MADAME TUSSAUD
Cartomante, Vidente, Taróloga, Esotérica, Umbandista, Cigana e Feiticeira
Faço qualquer tipo de trabalho

Isso foi um pouco depois de alugar este escritório, aqui no Edifício Asa, 13º andar, sala 1301, quando eu tinha pouco mais de trinta anos. Foi uma época difícil. De dívidas, jogos, prostituição, drogas, e um arsenal de coisas que me fizeram conhecer pela segunda vez o fundo do poço. Nesse momento, Madame Tussaud foi muito importante. Ela me ajudou a conhecer um mundo novo, mais leve, e a seguir meus passos em direção ao futuro. Inclusive, permita-me aproveitar esse momento íntimo e descontraído entre eu e você, para umas breves palavras de conforto:
            - Se você está precisando de serviços de inteligência; busca e captura; perdeu um objeto de estima, ou um parente querido; não sabe mais como recuperar aquele dinheiro emprestado há tanto tempo; seu marido ou esposa está te traindo e você precisa urgente de fotos que o/a incriminem? Então, eu só tenho uma coisa pra lhe dizer: pare o que você está fazendo e venha agora aqui na Praça Osório, entre no Edifício Asa, pegue o elevador da direita, suba até o décimo terceiro andar, vire à esquerda e olhe para a porta que estará à sua frente. Respire fundo. Tenha fé. Pode entrar sem bater, porque EU estarei à sua espera!
“Caralho, Linhares, cada dia que passa você fica mais estranho”
O Diabo acaba de entrar no escritório.
“Acorda. Tenho boas notícias pra você”
Abri os olhos devagar e sentei no sofá. 34 graus. Em Curitiba isso é o suficiente pra se fritar um ovo em cima da própria cabeça.
“Ontem, depois que você se foi, eu e Madame tivemos uma ótima conversa”
“Eu notei... Café?”
“Não, obrigado. Ficamos mais algumas horas conversando, e ela me disse que é muito provável que a dona do Poodle esteja tentando fazer um pacto com o Diabo”
            - Ééé...
“Parece que a lua entrará em conjunção com plutão, saturno e o sol, formando uma linha direta com Curitiba, mais precisamente com o planetário do Colégio Estadual”
            - E?
“Isso acontecerá em quatro dias”
            - E o que você qué que eu faça? Que eu entre no planetário matando todo mundo e rapte o cachorro?
“Seria uma ótima idéia...”
“Uma idéia tão cretina quanto você, detetive”
            - Cigarro?
“Você sabe que eu não fumo”
“Sempre há uma primeira vez”
“O ritual diz que, se duas pedras de esmeralda forem colocadas entre a linha que vem dos planetas e o coração de alguém, este alguém terá poderes sobre os mortos e vida eterna”
“E você vai dexá isso acontecê?”
“Acho que não... Da última vez que isso aconteceu, tivemos muitos problemas com o cara que fez o ritual”
            - E quem foi o cara? Fiquei curioso...
“Não importa...”
            - Claro que importa! Fala aê, Cramunha! Tá com medinho, tá?
“Saco! Você conhece as histórias de vampiros?”
“Sim”
“Lembra do Drácula?”
“Não”
“O Conde da Transilvânia?”
“O que tem ele?”
“Porra, você nunca ouviu falar nele?”
“E porque deveria?”
O Diabo ficou puto. Ele estalou os dedos e uma caneta Stabilo vermelha apareceu em suas mãos...
“Eu adoro quando ele faz esses truques”
...e escreveu alguma coisa num pedaço de papel. Deixou em cima da mesa.
PUF!
Foi embora.

(continua)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Breve Obituário Cotidiano



4

Desci pra fumar um cigarro e respirar um pouco do ar da rua. Olhei no relógio e os ponteirinhos já marcavam uma e meia da manhã.
-  Não tô nem um pouco afim de subir até o escritório.
“Que cê acha, Cramunha?”
“Você devia ir ao primeiro andar ainda hoje”
Eu tinha que aproveitar que as informações ainda estavam frescas.
            - A noite tá agradável. Acho que uma visitinha pra Dona Toussaud a essa hora pode até arrancá um sorriso da véia.
“Quem sabe ela não resolve te dar uns beijos”
“Cala a boca. Ela deve ter idade pra ser tua mãe”
“Mais respeito com a minha mãezinha”
O Diabo fez o sinal da cruz.
“Que Deus a tenha”. 
Subimos pela escada. Sala 111, no fundo do corredor. Dá entrada do andar já deu pra sentir o cheiro de incenso fedorento.
“Quem foi o fiadaputa que inventô essa porra, hein? Ô fumacinha dos Diabo”
“Desde a antiguidade que o incenso é usado em rituais. Eu lembro que tinha uns rapazes na região que hoje vocês conhecem como Oriente Médio, na fronteira com a Etiópia, que retiravam a essência de uma planta chamada Olíbano. Tinha um cheiro agradável, mas se perdeu o costume de queimar o negócio por conta dos católicos.”
“Esses tais de católicos tem essa péssima mania de proibir, você não acha?”
“Faz parte do jogo, Detetive”
Paramos em frente à porta.
“Madeira da Índia.”
“E?”
“Nada, Detetive! Bata na porta de uma vez!”
Toc, Toc...
-          Entre, Detetive!
Disse, uma voz velha e rouca, e continuou.
-          Limpem os pés! Há sandálias no canto esquerdo da porta.
“Limpem?”
Olhei para o lado e o Cramunha não estava mais ali comigo. Como ela sabia que eu não estava sozinho me deixou meio ressabiado, mas entrei. Eu tinha acabado de entrar em uma espécie de ante-sala. Seria uma copa se fosse numa dessas casas onde se encontram casais com filhos e cachorros, mas aqui, mais parece uma ante-sala de castelo medieval de filme, com velas, incensos, pinturas nas paredes, muitas flores e um tapete de couro de crocodilo com a bocarra virada pra quem entra. Botei uma sandália dessas estilo japonesa e fui entrando. Atravessei uma porta toda decorada com heras e entrei no que me parecia ser a sala principal do 'apartamento'.
-          Interessante seu tapete, Dona...
-          'Dona' é a sua avó!
Disse, entrando na sala, vindo provavelmente da cozinha, pois trazia nas mãos quitutes e algo que fazia fumaça dentro de um bule.
-          Prefiro, Madame, por gentileza!
-          Ok, Madame... Madame Toussaud... Melhor assim?
-          Piá atrevido! O que você quer de mim?
Ela colocou os quitutes em cima da mesa sem a menor intenção de que aquilo fosse para mim, apesar de haver na mesa duas xícaras e dois pratinhos. Como, às vezes, eu sou meio enxerido fui metendo a mão no bule.
-          Obrigado, Madame.
“Quer tirar a mão daí! Isso não é pra você.”
Era a voz do Diabo, mas o Diabo não estava por ali.
Eis que sai da cozinha um rapaz moreno, alto, bonito e sensual, mais ou menos parecido com o Marlon Brando...
“Na verdade, até que você é bem parecido com o Marlon.”
“I´m gonna make you an offer you can´t refuse.”
-          Hahaha! Essa imitação de Dom Corleone é a mais barata que eu já vi!
-          Com quem você está falando, Detetive? Por acaso você é retardado?
Perguntou, Madame, voltando da cozinha, e continuou.
-          Deixe-me apresentá-lo: Marlon, Detetive Tampinha, Detetive Tampinha, Marlon.
-          Cê tá de gozação comigo?!?! Vai me dizer que esse canastrão...
-          Ei, Detetive, cê tá muito esquentadinho com a Madame. Acho melhor você ficar quieto por uns minutinhos.
O cara fez um movimento com as mãos e de repente eu estava sem voz. Pelo menos eu ainda posso pensar, pensei.
“Essa voz é a do Cramunha, mas ele não tá aqui.”
“Detetive, dá pra parar de encher o meu saco!”
“Nossa, você é o Marlon?!”
Ele ergueu as duas sobrancelhas em sinal de 'E quem mais eu seria',
“E não é que vocês são parecidinhos, mesmo...”
então me calei por um tempo. Os dois pareciam ser amigos de outros tempos. Ficaram conversando sobre a terra, a água, metafísica, futuro, passado, e tudo em diferentes línguas. Eu como sou gente normal, um simples garoto malandrinho, moleque, piá de rua, não me entendo muito bem com essa coisa de língua, a não ser que essa língua saia de uma boca feminina, e no caso de 'feminino', pode ser qualquer coisa que se mova.
Eles estavam falando umas coisas das quais não faço a mínima idéia de onde vieram. E riam muito. Aliás, Madame Toussaud é outra que não para de rir.
Deve ter passado pelo menos uns cinco mil dias até um dos dois se calar e lembrar de mim. Ela virou e disse:
-          Então, o teu problema é o Poodle Esmeralda.
-          Quem te contou?
-          Está estampado  na tua cara de bobo.
“Olha só o tipo dessa velha doida.”
PLÓSH!
Ela mexeu o olho direito e eu virei uma pulga. Tentei pensar e não saía nada. Eu só enxergava a toalha da mesa. Saltei pra dentro de um dos pratos e dali pra ponta do nariz do Marlon. Ele me pegou e me apertou. Então saiu uma gosminha e eu morri.

(continua)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Breve Obituário Cotidiano


Madame Tussaud

3

O Nono Distrito é um lugar fedorento muito conhecido por seus negócios escusos e pela marginalia que anda por lá disfarçada de policial. Lá dentro não se sabe exatamente quem é quem. Todos usam máscaras. Os caras têm conexões com todo tipo de podridão que brota dos esgotos da cidade. É de lá que jorra a maior parte da cocaína e do crack que são consumidos no Centro. Eu trabalhei lá um tempo, no começo da carreira, quando eu ainda era um policialzinho borra-botas. Comecei até a entender o esquema do negócio. Fiquei quatro anos no distrito e consegui apenas uma coisa: uma bela butinada na bunda. Arranjei encrenca com um detetive bem mais velho. O cara já tinha vinte anos de casa e gostava de sair na madrugada rapelando a molecada, com a ajuda de mais dois safados, o Perna e o Xarope.
O negócio é que uma noite, na minha folga, eu tinha saído pra tomar umas biritas com uns conhecidos num bar perto de casa, e na volta peguei esses três safados limpando uns piás que estavam marcando touca perto da Av. República Argentina. Encostei o Inércia uma quadra pra cima, perto de uns sobrados, e fiquei de butuca entre as árvores. O velhão, detetive Fonseca, reconheci de longe por causa da cabeleira branca e da pança de cachaça, ficou em pé, encostado no capô do carro, um chevetinho mequetrefe, branco, ano 79, rebaixado e com todos os vidros fumê, enquanto os dois cretinos iam até os piás e davam umas bordoadas em uns e uns chutes nas pernas de outros. Levaram tudo dos guris. Não fiz nada. Fiquei com medo de ser repreendido. Depois que eles abandonaram o local fui conversar com os piás, e eis que encontro um conhecido entre eles, um primo distante, sobrinho da minha mãe,
“Que Deus a tenha”
que na hora nem me reconheceu de tão bêbado que estava. Os guris estavam em sete, seis de pé no muro, mais um deitado numa escada que provavelmente estava servindo de maca. Deviam estar carregando o guri para casa. Coitado. Estava mais torto que bambu na ventania. Eu saquei na hora qual era a dos policiais: sair por aí roubando a piazada que vaga alucinada pelas ruas escuras de Curitiba. Esse é um bom pretexto. Todo piá quando tem dezesseis, dezessete anos, sempre tem um baseadinho no bolso, e quando isso não acontece, os canas arranjam um jeito de te culpar, e aí não tem jeito, você acaba entregando tudo pra não passar uma noite no distrito e o teu pai ter de ir lá às quatro da matina e descobrir que o filho fuma um baseadinho com a galera.
Troquei uma idéia com a molecada, e eles me contaram que estavam vindo de uma festa de aniversário regada a pinga Tatuzinho e Éter, roubado do laboratório de química do colégio de um dos organizadores da festa. Falei que era policial e que ia dar uma ajuda levando-os até em casa. Nada demais. Enfiei todos no Santanão e os deixei algumas quadras mais adiante, num condomínio gigante com milhões de blocos. Condomínio estilo pombal. O mais surreal foi encontrar três amigos deles na frente do prédio, completamente putos de terem sido roubados pelos mesmos policiais. Na hora não me contive e comecei a rir. Era muita sacanagem pruma noite só. Os safados estavam fazendo fila pelo bairro. Os três contaram sua história triste. Eu anotei todos os detalhes. Talvez, isso fosse me servir pra alguma coisa. Na hora eu achei que não serviria, fato que depois se tornou legítimo, quando da minha briga com o tal detetive Fonseca. Nunca mais vi os moleques, mas a briga com o Fonseca eu não esqueço até hoje. Inclusive, essa visitinha ao Nono distrito vai deixar muita gente de cabelo em pé.
“Você vai se vingar de alguém, Detetive?”
“Quem sabe...”
“Não seria muito inteligente da sua parte entrar em um distrito querendo apagar alguém.”
“Quem disse que eu vou entrar lá?”
Eu não sei o que o Nono distrito tem a ver com o cachorro da ricaça gostosa, mas alguma coisa estava me cheirando bem, e de qualquer forma uma visitinha surpresa aos meus velhos amigos cairia muito bem.
Catei meu chapéu do cabide; meti a Jéssica no coldre; cigarros; chave do Inércia; capotão, gravata e óculos escuros.
“Eu sou, ou não sou, um cowboy, hein Cramunha?”
“Não esqueça o orgulho, detetive”.
Tranquei o escritório. Peguei o elevador. O Edifício Asa no final da tarde é meio bucólico.
“São seus olhos, Linhares”.
            - Foda-se.
Entrei no Inércia e segui em direção ao Nono distrito.
            - Cramunha, o negócio é o seguinte: nós vâmo chegá lá e você vai me dá a dica, ok? Depois eu me viro.
Eu sempre levo o Diabo comigo aonde quer que eu vá. Às vezes, ele até que dá umas dicas certeiras.
Peguei a Carlos de Carvalho até o final e entrei à esquerda na Arthur Bernardes.
            - O caminho até lá vai ser rápido. Qué pará no Am-Pm pra comê alguma coisa?
Parei no Am-Pm e mandei um Frango-Burguer com fritas especial e Coca-Cola. O Diabo ficou no carro. Ele não gosta muito dessas porcarias modernas industriais, diz que faz mal pra saúde. Eu não estou nem aí pressas bostas. Melhor que cozinhar no escritório naquele fogareiro à gás medieval. Aqui pelo menos a comida já vem pronta e não precisa esperar. Eu odeio esperar.
            - Quanto deu?
            -
            - Vintão?
            -
            - Ok. Pela praticidade té que vale a pena...
            -
            - Não, obrigado. Põe na conta uma carteira de Marlboro Vermelho Box.
            -
            - Não, o maço amassa o cigarro, fora que no final ele fica parecendo cigarro de bêbado miserável.
            -
            - Pois é, eu vi. Dizem que ele tá na próxima lista de convocados. Acho que o técnico mandô bem. O guri tá comendo a bola.
            -
            - Hehe. Não fosse o salário acho que nenhuma dessas guriazinhas escrotas ia ficá correndo atrás desses piás.
            -
            - Beleza. Valeu, compadre.
            -
            - Falou.
Voltei pro carro. O Cramunhão já estava arrancando as barbas.
“Tem que ficá de papo com todo mundo...”
“Porra! Qualé!? O cara é carente! Fica aí nessa merda o dia todo...”
“E pela empolgação era futebol.”
“Você tá parecendo minha ex...”
Pensei e logo fiquei quieto. Lembrei de uns versinhos de um guri de São Paulo que diz:
toda mulher é o Diabo
não há homem que as negue
e todos eles desejam
que o Diabo as carregue

Óbvio, o Diabo riu.
Segui a estrada até a frente do Nono distrito.
“Eu não tenho a mínima idéia do que eu vou fazê aqui. Vou ter de improvisá”.
Olhei no retrovisor para dar uma arrumada no chapéu.
PAM!
Levei um susto quando o rosto no espelho era o do detetive Fonseca.
“Essa é a dica”.
Como no conto da Cinderela, o Diabo deu uma forcinha e eu me mandei pra dentro do distrito na maior cara de pau. Fui logo entrando e uns babacas já vieram puxar meu saco.
- E aê, Fonseca!?
- Qual é?
- Esqueceu alguma coisa?
- Porra, saiu daqui dizendo que só voltava amanhã de tarde.
- Ficou com saudade da delegacia?
Alguns riram. Fiquei sério. Cara de mal. Todos se calaram. Pelo jeito o poder do Fonseca era maior do que eu pensava. Reconheci algumas das figuras ali: Cardoso, que serviu comigo no 5ºBlog; Genivaldo, bucha de canhão com quase trinta anos de casa, só pega trabalho boca-podre; Garcia, pistoleiro vagabundo que limpa chassis de carros roubados; Léco, goleiro do time da delegacia, gente boa; e o Renato, que já me quebrou alguns galhos, mas que de uns tempos pra cá começou a fumar a tal da pedra e migrou de lado. Se eu disser que senti saudades vou estar mentindo, meu desejo é ver essa corja cavando a própria cova. 
“Acho que isso me dá o direito de fuçar aonde eu quiser”.
            - Alguém trás pra mim os BOs dos últimos sete dias que contenham furto, ou roubo, ou assassinato, ou qualquer bosta sobre gran fina que perdeu o cachorrinho de estimação.
Os policiais ficaram se olhando.
            - Vâmo, porra! Alguém se mexa!
            - Mas, chefe, não atendemos nada do gênero e...
            - Então, alguém vai ali no banheiro rapidinho e caga um pra mim, por gentileza? Cadê a secretária?
“Bosta! Eu não sei o nome de ninguém”.
            - Olha, chefe, a Geruza já saiu faz algumas horas...O senhor tá bem?
            - Não! Tô puto!
“Vô mandar um chutão. Espero que eu acerte”.
            - O negócio é o seguinte: a irmã da minha mulher tem uma amiga que é parente próxima de um primo dela que tem um conhecido que é vizinho de um outro primo dele que é casado com a sobrinha de um dos irmãos daquele amigo nosso detetive o Vargas lá do terceiro distrito que disse pra mim esses dias que eu precisava me arrumar melhor comprar uns ternos diferentes e comer menos gordura pra viver um pouquinho mais então entendi o recado e fui atrás de uma academia e acabei conhecendo o dono da loja de automóveis da esquina da Kennedy com a Brigadeiro Franco e ele me disse que precisava da nossa ajuda pra encontrar a cachorra da melhor amiga da filha dele que estuda no colégio Bom Jesus e que não dorme há dias por causa do sumiço da cadela e a mãe que tem uma loja de jóias na Av. do Batel não agüenta mais a filha enchendo o saco de noite e de dia por isso eu preciso do BO agora nem que você tenha que parir um pelo nariz! Você me entendeu?
Ficou todo mundo com aquela cara de paisagem morta.
“Golaço!”
Nisso entra um guri de uns vinte anos correndo pela porta.
            - Tá aqui chefe.
            - O que?
            - O BO que o senhor pediu.
            - E onde você conseguiu isso?
            - Entrei no sistema integrado das polícias, e descobri que o BO foi feito por um homem, e não por uma mulher, há dois dias, no Segundo distrito, e que o cachorro é um poodle de olhos verdes...
“As esmeraldas...”
            - ...com uma faixa no pescoço...
            - OK!!! Se tá tudo escrito aí, porque você tá me contando tudo de novo? Parece burro! Me dá aqui esse troço!
Arranquei o relatório da mão do piá. Ele era bom. Não fosse o meu disfarce eu mandaria ele embora. A polícia não precisa de caras bons como ele.
“Será que se você pedir pra ele comer o côco dele, ele come?”
            - Cala a boca, Cramunha!
            - Foi mal, chefe.
            - Não você, porra!
            - Quem é Cramunha, chefe?
            - Pára de me chamar de chefe, cacete!
            - Mas foi o senhor que mandou todo mundo te chamar de chefe.
            - Ok. Então, a partir de hoje todo mundo pode me chamar de bróder, e não precisa mais ficar pedindo licença pra entrá na minha sala, eu acho isso um saco, e pode usar o meu banheiro numa boa, e o expediente será reduzido em uma hora nos plantões, e avisa a Geruza que é pra mudá a porra da marca do café, que esse aqui não serve nem pra reserva de gandula, e bota pizza pra todo mundo, inclusive pros presos, toda quarta-feira, beleza?
Os caras começaram uma ovação absurda. Mais me pareceu que o clube de cada um havia sido campeão naquela mesma hora, todos ao mesmo tempo.
“Você é um tremendo filho da puta, Linhares...mas eu gosto disso”.
“Eu sei ser um cara legal vez ou outra”.
Quando eu vi já tinha um pendurado no telefone com uma lista interminável de pizzas, nos sabores mais esdrúxulos possíveis.
“Hehe”
Voltei pro escritório. Passei um café. Sentei na minha mesa e parei para analisar o BO. Um milhão de coisas passaram pela minha cabeça.
“Não tenho a mínima idéia de onde achar esse maldito cão!”
Reli trezentas vezes o BO e as letrinhas começaram a conversar comigo. Não agüentei e apaguei. Acordei de manhã com uma vontade absurda de encontrar uma pessoa. Ela mora no primeiro andar: Madame Toussaud.

 (continua)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Breve Obituário Cotidiano



2

            - Acorda aê, vagabundo!
            - Éé, acorda que nóis têmo que trocá uma idéia!
Antes de eu abrir os olhos já havia dois caras em cima de mim. Fingi que estava dormindo e um deles fez o favor de me dar uma baldada de água fria.
            - Filho da p...
            - O que foi que você falou, Detetive?
O safado meteu o revólver na minha fuça. Eu sei quando não estou ganhando o jogo.
            - Você já pode tirá esse negócio do meu nariz. Já entendi.
“Acho que a coisa está feia pro seu lado. Quer uma ajudinha?”
O Diabo saiu da cozinha com uma xícara de café e sentou-se na minha cadeira com os pés em cima da mesa.
            - Dá pra tirá a porra do pé de cima da mesa!
            - Que foi que você disse, Detetive?
            - Aceitam café?
            - Mas é craro. Pega lá Trôxa.
            - Pega você, Bósta.
            - Eu não. Da última vez foi eu quem pegô.
            - E daí. Lá no China eu que segurei o cara procê dá uns tapa. Pega lá!
            - Ããã... é verdade. Tá bom...
            - Treis gotinha, hein?
É nessas horas que eu pago cinqüenta reais pra ver a minha cara de bobo enquanto esses idiotas discutem. É sempre assim. Os chefões do crime (des)organizado deviam recrutar seus capangas em universidades e não nas ruas.
“O adoçante acabou, Detetive.”
“Pois é... talvez eles ainda briguem e quebrem alguma coisa aqui dentro”
“É sempre assim...”
O Bósta era quase do tamanho da porta: gordo, de voz mansa, grave e mocoronga, olhos baixos e caídos nas extremidades, quase não dava pra ver as bolinhas dentro da cabeça. Nariz pequenininho, quase nenhum dente na boca... uma espécie de versão PULP/NOIR do Slot, só que de bermuda e camiseta.
Já o Trôxa dá pra saber só pelo jeito que ele fala. Todo malandro, mulequinho, cheio de ser o bom da boca. Tem a fala fina e rápida. É pequeno e rápido nos movimentos. Tem os olhos grandes e redondos, o nariz fininho, tipo chefe de cozinha francês. Camisa de gola italiana com blazer, calça de linho, sapatos bem lustrados. Ele jura que é uma imitação perfeita do seu chefe... uma espécie de versão abobalhada dos Irmãos Cara-de-pau.
            - Ééé... é sempre assim...
            - Sempre o que, Detetive?
            - Então, os dois já têm o que querem?
            - Ããã... Trôxaaa, não encontro o adoçante de gotinha...
            - Estou sem no momento. Parece que o Diabo tomou tudo.
            - Põe açúcar, então, Bósta.
            - Quanto eu tenho que pôr, Trôxa?
O Diabo ri. Aliás, o Diabo só ri nessa história.
            - Xicrinha ou caneca?
            - Caneca.
            - Duas colher tá bom. Então, Detetive Linhares, tâmo querendo sabê da tal mulhé que veio aqui ontem.
            - Hoje já é amanhã?
            - Do que cê tá falando, Detetive?
            - Acho que dormi demais e tô tendo um pesadelo.
De uma hora pra outra eu me toquei que eu estava acuado dentro do meu próprio escritório; que devia ser umas dez da manhã; que a Jéssica estava dentro da gaveta; e que os safados estavam acabando com o meu estoque de café. Fiquei puto.
            - Olha lá, Trôxa, o Bósta tá tomando todo o café. Você vai ficar sem, hein...
            - Que...
Ele virou pra trás para olhar. Caiu no truque mais velho do mundo. Nem a piazada da quarta série cai mais nesse truque. Catei o Trôxa numa gravata e, enquanto isso, o Diabo que não é bobo me arremessou a Jéssica.
CLÉC!
Em menos de um milésimo de segundo eu tinha a minha pistolinha .45 de estimação enfiada na nuca do nanico.
Falei bem baixinho no ouvidinho do rato de esgoto.
            - Avisa teu amigo que é pra ele vir sentar aqui e não bancar o amigo-que salva-todo-mundo-no-final-do-filme, senão, a empresa de lixo vai catá os pedacinho de vocês dois daqui até o inferno. É ou não é?
            - É o que, Detetive?
            - Cala a boca! Não falei com você!
O Diabo matou o último gole de café. Levantou e saiu pela porta. Lá do fundo deu um aceno.
            - Avisa o teu amigo.
            - Tá bom, Detetive, tá bom, peraê... Ééé... Bóstinha querido, você pode vir aqui na sala com bastante calma, por favor?
Ele botou a cabeçona na porta e se assustou. Tadinho.
            - Ããã!? Que é isso?! Larga ele, Detetive idiota! Vô acabá com você!!!
Ele sacou um revólver de dentro da bermuda. O Trôxa entrou em pânico.
            - Nããããoooo!!!!! Ele vai matá nóis dois!!! Não faz isso, Bóstaaa!!!
            - Ããã, porque não?
            - Se acalme, queridinho, se acalme... tá tudo bem, o Detetive é amigo e não vai fazê nada se você não fizé também... calminha aê amigão...
O Bósta parou na porta com a arma apontada pra mim.
            - Põe esse revólver de volta no lugar e senta bem aí aonde você tá, que hoje, o Detetive Linhares não tá afim de matá ninguém, ok bonitão?
“Demais essa frase. Às vezes, eu me sinto o próprio Billy, the Kid. Fico imaginando o que ele faria numa situação como essa, o jeitão dele, sabe? Tem dias que eu fico treinando o jeito que ele olharia prum safado como esse, e que texto ele daria pro cretino. É uma coisa meio James Jean, meio farwest, meio eu mesmo, tá ligado, porque quando eu era criança eu ficava excitado com aquelas cenas românticas dos filmes de cowboys: o sol se pondo, dois caras prontos pra estourá os miolos um do outro, o gatilho mais rápido do oeste, a coisa toda, sabe o que eu tô dizendo? É um troço meio filme de samurai, não sei explicá direito, Kurosawa e coisa e tal, mangá, quadrinhos, Tarantino, não sei dizê, mas é uma sensação muito louca. Ficava imaginando aquele último trago no cigarro, a bituca arremessada pro lado, o cara que dá o último gole na cachaça e bate o copo no balcão, as frases de impacto ditas de um jeito meio canastrão... Hehe, é isso aí, coisa de machão mesmo... já tô até ouvindo a trilha... “rain drops keep falling on my head” com o Paul Newman passeando de bicicleta com a Katharine Ross... eu fico emocionado…”
            - Ô Trôxa, o Detetive tá triste...
            - Êêêê, qualé Bósta?! Tá tirando sarro de mim?
            - Não, seu Detetive, não é isso, é que teu olho tá cheio de...
            - Tá, tá, tá, tá, já me cansei dessa lenga-lenga. Vô matá os dois e pronto.
            - Que?
POW!
O tiro atravessou a nuca do Trôxa e parou dentro da cabeçona do Bósta. Enrolei toda a merda que vazou pela sala e pela cozinha em sacos de lixo e esperei o Diabo chegar pra dar um jeito nos corpos. Fui tomar um banho. Na volta os corpos não estavam mais na sala, apenas um papel em cima da mesa com um telefone anotado. Liguei. Atendeu uma voz feminina.
            - Nono Distrito.
O Diabo riu.
Essa era a dica.

(continua)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Breve Obituário Cotidiano


Tábua de Esmeralda

1

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

36 graus. Suando a bicas. De cueca com o ventilador ligado no máximo em cima do peito. Um saco de gelo na testa. Ar condicionado pifado desde o inverno de 74. Curitiba com calor é pior que o próprio inferno. Parece maldição.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

O Diabo sentado em cima da mesa olhando pra mim. Rindo.
“Tá com calor, Detetive?”.
Não passa de um tremendo safado esperando que a morte bata na porta pra acertarmos as contas... e de perninhas cruzadas.
“Qué um café?”
Penso tirando um sarrinho.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Tirando sarro de quem, Detetive, pergunto pra mim mesmo.
“Quem está na merda é você! ”
Ele diz sem maiores inflexões. Ele tem razão. Preciso de um trabalho num lugar bem frio. Na Alemanha, por exemplo. Talvez, procurar uma esposa gostosa...

Tic-tac, tic,
POW!

“Tá nervosinho, Detetive?”
... desaparecida, de um milionário da indústria da cerveja. Ia ser legal. Cobrar tudo em cerveja, dar um passeio pela Europa, e matar alguns nazistinhas que ainda rondam por lá.
“Não. Tô bem desse jeito. Não tá vendo?”.

Toc toc toc

“Não vai atender, Detetive?”
“Preguiça”

Toc Toc Toc

“Quem sabe seja a esposa gostosa querendo que você ache o marido desaparecido, hehe”
“Cala a boca, seu cramunhão!”

TOC TOC TOC

“Eu se fosse você atendia...”
“Porque você não vai procurá tua tur...”

CRASH!

Um cara de uns três metros de altura por dois de largura acaba de quebrar a minha porta. É a quinta vez que isso acontece. Esses brutamontes não entendem nada de etiqueta.
            -       Você não sabe ler, gigantão? Tem uma plaquinha na porta:

NÃO FÔDA! ESTOU DORMINDO!

O cara saiu da frente da porta e uma gostosa vestida de vermelho entrou girando a correntinha da plaquinha nos dedos. Sentou na mesa ao lado do cramunhão. Acho que ela não o viu.
            - Olha, dona, daqui do sofá até que vocês dois são parecidinhos.
            - O que?
            - Deixa pra lá... Em que posso ser útil? A plaquinha vai te custar um extra, hein?
            - Ivan, jogue uma roupa para o indigente.
            - Indigente, dona! Eu sou Detetive! Detetive Linhares, ao seu dispor.
O Ivan tacou a calça na minha cara. Botei o ventilador no chão, com o saco de gelo que já tinha virado água.
            - Você pode alcançar uma toalhinha que tem na cozinha, Ivanzinho?
Ele grunhiu. Acho que não gostou de mim. Vesti a calça e botei meu chapéu. Acho que fiquei parecendo um cowboy de filme farwest.
“Quer parar de aparecer, Detetive! O negócio dela são outros...”
            - Eu detesto quando você me diminui na frente das mulheres...
            - Detesta o que, Detetive?
            - Pode me chamar de Linhares, dona...
            - Linda Lupino.
Ela sentou na minha cadeira de Detetive. Não gosto disso, mas as gostosas podem. O Diabo parou atrás dela. Ivan ficou na frente da porta servindo de porta. Acendi um cigarro.
            - Fuma, Linda?
“Porra, ela é linda pra cacete!”
            - Não essas porcarias! Ivan!
Ele veio com um cigarrinho. As mãos do idiota eram maiores que o isqueiro. Ele não conseguia manuseá-lo. Então, ele estalou os dedos e uma chama brotou da ponta do dedão.
“Ei! Legal! Como será que ele faz isso?”
            - Detetive, eu preciso que você encontre meu cachorro de estimação.
            - E o que ele tem de especial, além de ser seu?
            - Ele é meu.
“Ótima resposta...”
            - Como ele é?
Ela foi abrindo a gaveta da mesa.
“Droga!”
            - É um pequeno Poodle branco de olhos verdes e...
Ela puxou um dos meus gibis de fim de semana.
            - Você sabia, Detetive, que a maioria dos homens gostam de ler a Playboy, pelo mesmo motivo que lêem a National Geographic...
“Para ver lugares que nunca irão visitar”.
            - Para ver lugares que nunca irão visitar.
“Você deve tá de pacto com ela...”
            - E daí? Muitas delas já têm mais de 80 anos mesmo...
            - Quantos anos você acha que eu tenho, Detetive?
“Essa gostosa deve ter uns quarenta”
            - Uns trintinha tá de bom tamanho...
O Diabo riu.
Ela deu uma tragada funda. Matou o cigarro e o apagou na mesa, jogando a bituca para o brutamontes. Ele a abocanhou numa pegada só.
“O cara é cheio de truques...”
            - Bela pegada, Ivan.
Ele grunhiu de novo.
            - E esse Poodle, Dona Lupino.
            - Ele sumiu faz três dias.
            - Além dele ser seu, o que mais é importante nele? Algum detalhe...
            - Seus olhos foram cirurgicamente retirados e no lugar foram implantadas duas esmeraldas.
            - Só isso?
            - Sim. Ela sumiu da frente de uma loja de jóias na Av. do Batel. Ivan estava muito ocupado urinando em um hidrante e não viu a cadelinha ser retirada de dentro do carro, não é Ivan?
Dessa vez, ele não grunhiu.
            - Certo.
Interrompi, porque o constrangimento do brutamontes me afetava de alguma forma.
            - Você viu alguma coisa, Ivan?
Ele balançou a cabeça em negativa.
            - Bom, Dona Linda...
“Linda é minha mãe que eu pedia um real e ela me dava dez!”
            - ...creio que este serviço vá lhe custar caro, pois, sem nenhuma pista concreta eu...
Ivan se aproximou da mesa. Se ajoelhou em frente à gostosa. Ela levantou a peruca de Ivan e abriu um zíper em sua cabeça. Tirou um maço de notas de cem e me entregou.
            - Aqui tem um bom dinheiro pra você começar. Meu cartão.
No cartão vermelho-sangue, vinha escrito Linda e assinado Linda. Ela redundava de tão gostosa.
            - Ok, Dona Linda, em uma semana seu totó estará de volta ao lar.
            - Perfeito!
Ela levantou-se, atirou a revista na boca do Ivan e saiu. Ivan recolocou a porta no lugar e saiu. Ficaram eu, o ventilador e o Diabo, com um sorrisinho cínico estampado no meio da fuça vermelha.
“Que foi agora?”
“Que gostosa... Vá trabalhar! Eu passo aqui amanhã prum cafezinho.”
            Virou fumacinha e se foi. Deitei novamente no sofá. Liguei o ventilador. Botei o chapéu na cara.
“Eu tenho sete dias pra resolver isso. Vai ser moleza”.

(continua)